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Hoje é segunda-feira, 23 de outubro de 2017. São 17h18min.

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Introdução: O que é Onipotência?

Onipotente (Oni - do Latim omni, “tudo”; Potente - do Latim potens, “poderoso”, “aquele que pode”; transl.: O Todo Poderoso, Aquele que pode tudo).

Na teologia, onipotência é um dos atributos exclusivos e incomunicáveis de Deus. Trata-se de um conceito teológico, filosófico, religioso e metafísico, abordado na área na área da lógica e razão. Mas Deus? O que é Deus? Será que pode-se definir Deus?

De modo geral, não há uma definição objetivamente válida para o que é Deus. Popularmente, cada pessoa pode chamar o que quiser de Deus. Todavia, se tratando de onipotência, essa definição se reduz totalmente.

Nesse ponto de vista, Deus trata-se de um ser perfeito, incorpóreo, infinito, eterno, transcendente, atemporal, não-causado, necessário, supremo, irrestrito e incondicionado, que sabe de tudo, está em tudo e pode tudo. Tal ser sustenta a existência de todas as coisas. Desse modo, todas as vezes que eu usar a palavra "Deus", estarei me referindo a um ser com essas características.

Desde o início da lógica, várias correntes filosóficas apontaram paradoxos e contradições que a onipotência implicaria em si mesma, o que colocaria em xeque a ideia de um ser que pode tudo. A partir daí, surgiram várias vertentes e explicações variáveis, para de alguma forma invalidar esses paradoxos.

Atualmente, existem duas vertentes para ela, sendo essas vertentes: Escolástica, baseada nas ideias de Tomás de Aquino; Translógica, cuja origem não se baseia nas ideias de algum filósofo específico. A visão escolástica é a mais defendida, de forma praticamente unânime entre os teólogos. Há um número pequeno que defende a translógica, entre eles, René Descartes, Nicolau de Cusa, St. Pedro Damião, Nicolau de Cusa, Martinho Lutero e Teodoro de Beza.

Definição escolástica

A onipotência na escolástica é a onipotência lógica, que é a mais defendida na teologia. Um dos seus defensores mais notáveis foi o frade, filósofo e teólogo Tomás de Aquino (Tommaso d'Aquino). Suas ideias são expressas em seu compilado de livros, Summa Theologiæ, no qual ele faz perguntas a respeito de Deus, e as responde. Essa onipotência é a mais defendida entre os filósofos, de forma praticamente unânime.

A visão da lógica clássica a qual em alguns princípios, nos quais estão incluídos:

  1. Lei da identidade (a=a)
  2. Lei do terceiro excluído e princípio de bivalência
  3. Lei de não contradição (\neg (P \wedge \neg P))
  4. Dupla negação (*4 \centerdot 13.\vdash. p \equiv \sim(\sim p))
  5. Princípio de explosão (\{ \phi , \lnot \phi \} \vdash \psi)
  6. Comutatividade da conjunção ((A \and B) \vdash (B \and A) e (B \and A) \vdash (A \and B))

A lei de não contradição parecia tão óbvia, que nenhum filósofo além jamais se preocupou em fazer uma defesa a ela, com excessão de Aristóteles, no Capítulo 4 de sua Metafísica.[1]

Uma das características de Deus segundo o monoteísmo como um todo, e como qualidade necessária do onipotente, é a unidade de Deus. Deus deve ser um só. Não só para isso, como também para ser o princípio absoluto e incondicionado, e o nível máximo da perfeição.

Na Questão 11, Art. 3 de Summa Theologiæ I, Tomás de Aquino explica:

Ora, se existissem vários deuses, necessariamente tinham que diferir e, portanto, algo conviria a um que não conviria aos outros; e se tal fosse uma privação, eles não seriam absolutamente perfeitos; se fosse perfeição, esta faltaria aos outros. Logo, é impossível existirem vários deuses. E, por isso, os antigos filósofos, quase arrastados pela verdade, admitindo um princípio infinito, consideravam-no único.[2]



Segundo Tomás de Aquino, a onipotência se refere a realização de todos os atos possíveis, cuja ideia hoje pode ser completada pela ideia de mundos possíveis da lógica modal. Ela não viola a lei de não contradição.

Tomás de Aquino afirma que a Onipotência de Deus se baseia na realização de atos no possível absoluto, mas isso não inclui a impossibilidade absoluta, devido ao fato de figuras como um triângulo cuja hipotenusa é maior que a soma dos catetos serem inexistentes em si mesmo e na própria contingência — são totalmente impossíveis.

O possível absoluto é assim chamado por sê-lo por si mesmo, e não, por causas superiores ou inferiores. O possível, porém, assim denominado relativamente a uma potência, o é pela causa próxima. Por onde, o que, por natureza, só pode ser feito por Deus, como criar, justificar e coisas semelhantes, chama-se possível em virtude de uma causa superior. Aquilo porém que é de natureza a ser feito por causas inferiores chama-se possível em virtude dessas causas; pois, da condição da causa próxima provém a contingência ou a necessidade do efeito, conforme dissemos. Por onde, considera-se estulta a sabedoria do mundo por julgar impossível a Deus o que o é à natureza. E assim, é claro que a onipotência de Deus não exclui das coisas a impossibilidade e a necessidade.[3]



Isso faz com que ela deixe de ser onipotência? Efetivamente não. Em seu livro, Tomás de Aquino explica:

Todos, em geral, confessam que Deus é onipotente, mas é difícil mostrar a razão dessa onipotência. Pois, pode ser dúbio o sentido dessa atribuição: Deus pode tudo. — Mas, quem considerar retamente compreenderá que, referindo-se a potência ao possível, o dizer-se que Deus pode tudo não significa senão que pode tudo o que for possível e, por isso, dize-mo-lo onipotente. Ora — possível — é susceptível de duplo sentido, segundo o Filósofo.
[3]


Tomás de Aquino demonstra que a potência tem implicitamente o significado de possível em seu próprio conceito, e que a onipotência por essa definição, deve incluir tudo que é possível. Trata-se de possibilidade metafísica, que hoje, pode ser associada a ideia de mundos possíveis encontrada na lógica modal. Todos os atos que existem em todos os mundos possíveis podem ser realizados por Deus. Ademais, aquilo que não existe em nenhum mundo possível não pode sequer ser considerado ato ou ente, de modo que realizar tais pseudo-atos seria o mesmo que nada realizar.

Logo em seguida, Tomás de Aquino esclarece:

Num sentido, é relativo a alguma potência; assim, dizemos ser possível ao homem o que lhe depende da potência. Ora, não podemos dizer que Deus é onipotente por poder tudo o possível à natureza criada, porque a divina potência tem maior amplitude. Por outro lado, se dissermos que Deus é onipotente, porque pode tudo o que ao seu poder é possível, haverá círculo nesta explicação da onipotência. Pois, seria o mesmo dizer que Deus é onipotente por poder tudo o que pode. Donde se conclui que Deus é dito onipotente por poder tudo o que é absolutamente possível; que é outro sentido da expressão — possível. Assim, uma coisa é possível ou impossível, absolutamente, pela relação dos termos. Há possível absoluto quando o predicado não repugna ao sujeito, p. ex., Sócrates estar sentado; e impossível absoluto, quando repugna, p. ex., ser um homem asno. Mas, devemos considerar que, agindo todo agente conforme a sua natureza, a cada potência ativa, segundo a natureza do ato em que se funda, assim, lhe corresponde o possível, como objeto próprio. P. ex., o que pode ser aquecido é objeto próprio da potência calefactiva. Ora, o ser divino, fundamento da divina potência, é infinito, não limitado a nenhum gênero de ser, mas encerra exemplarmente a perfeição de todo o ser. Por onde, tudo o que tem ou pode ter natureza de ente está contido na possibilidade absoluta, em relação à qual dizemos que Deus é onipotente. Pois, só a noção de não ser se opõe à de ser. Portanto, só repugna à noção do possível absoluto, objeto da onipotência divina, o que implica em si simultaneamente o ser e o não-ser.

Porque isto não está sujeito a ela; não por deficiência da potência divina, mas, por não ter natureza de factível, nem de possível. Por onde, tudo o que não implique contradição está contido nesses possíveis, relativamente aos quais dizemos que Deus é onipotente. As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.[3]



Um triângulo cuja hipotenusa é maior que a soma dos catetos, um filho único com dois irmãos ou um solteiro casado são literalmente nada, pois essas proposições entram na classe de entidades que não podem existir, ou seja, o nada, que é em si, a não-existência. Tais entidades não existem em nenhum mundo possível e nem sequer podem ser consideradas contingentes.

Concluindo, na escolástica, não há nada na definição de onipotência que necessariamente sugira a realização de absurdos lógicos. Isto é, uma contradição não é considerada ente, é em si, nada. Assumindo que fazer nada é nada fazer, a incapacidade de realizar uma contradição se deve ao fato de que a sua realização é o mesmo que a não-ação, ou seja, o próprio nada. Desse modo, a onipotência não tem de violar a lei de não-contradição para ser onipotência, pois fazê-lo seria o mesmo que não fazer nada.

Você pode pensar que se o onipotente estiver restrito ou condicionado a algo externo a ele, isso invalida sua onipotência. De fato, isso faz sentido desde a semântica da palavra. Entretanto, deve-se lembrar que o ponto é que nada externo ao onipotente pode restringí-lo, de modo que a única coisa tão grande quanto ele, é ele mesmo. Nessa linha de raciocínio, muitos filósofos escolásticos acreditam que Deus deva ser o próprio conjunto de leis necessárias que governa a existência, pois as mesmas estão acima de tudo. Se você não consegue pegar a linha de raciocínio, usarei as características para clarear. As leis necessárias são:

  • Onipresentes (estão em tudo em qualquer lugar)
  • Incorpóreas (não possuem corpo físico_
  • Eternas e infinitas (devido a incluirem a totalidade dos números em sua parte matemática, que é um conjunto infinito)
  • Governam o universo (desde a lógica e seus princípios invioláveis até a matemática e as leis da física que são expressas em equações)
  • Possivelmente foram o que deu origem ao universo (para o físico Stephen Hawking, a existência de leis como a gravidade permitiriam que o universo viesse a existir[4])
  • Imutáveis (desde a atribuição da necessidade, as leis lógicas e matemáticas não podem ser alteradas)

Todas essas são características que se encaixam na natureza de Deus. Esse não é um consenso, apensar disso.

Em outras palavras, na escolástica, nenhum dos paradoxos que envolvem contradições são de fato um desafio que torna a onipotência logicamente impossível. Tais paradoxos são nada menos que o desenvolvimento de uma má interpretação do que é onipotência, e a incapacidade de realizar contradições não a desfaz como sendo capaz de realizar tudo. Ademais, o nada é o extremo oposto de tudo, e ser capaz de realizar tudo não tem em sua definição o nada, de modo que pelo próprio significado da palavra, contradições não se incluem.

Definição translógica

Esse nome não é oficial. "Definição translógica" é só um nome que eu usei para se referir a ela. Essa é a onipotência que não segue os princípios da lógica clássica, tais como a lei de não contradição. Essa onipotência está desconectada e incondicionada a quaisquer coisas. Por ser muito simplista e, obviamente, ilógica, ela é pouco defendida.

Há um número pequeno que defende a translógica, entre eles, René Descartes, Nicolau de Cusa, St. Pedro Damião, Nicolau de Cusa, Martinho Lutero e Teodoro de Beza. Ao contrário da visão escolástica, não há nenhum que representa ou foi o principal nessa visão. Não existe um "Tomás de Aquino" da definição translógica.

Entre os princípios que vão contra essa definição, o principal deles é a lei de não contradição, defendida por Aristóteles no Capítulo 4 de sua Metafísica. Opondo-se a isso, há uma corrente filosófica conhecida como dialeteísmo[1], que aceita que algumas contradições possam ser verdadeiras na realidade. Assustadoramente, há uma boa base para sustentar essa corrente na lógica, como demonstrado pelos paradoxos de auto-referência, tais como o paradoxo do mentiroso[5], que pode ser expresso da seguinte forma:

(a) A proposição (a) é falsa.

Ou:

(b) A proposição (c) é verdadeira.
(c) A proposição (b) é falsa.

De um ponto de vista analítico, o paradoxo do mentiroso será contraditório independente do que acontecer, o que não invalida como paradoxo. Factualmente, as proposições existem, e ambas têm de ser simultaneamente verdadeiras e falsas. Mas como algo poderia ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo? Isso não seria contraditório? De fato, demonstra-se assim que a lógica clássica, e o princípio de não contradição, têm limitações linguísticas, e portanto, não podem de maneira nenhuma ser considerados absolutos, uma vez que nossa própria linguagem, que por si só é limitada, já pode violá-lo.

Para a Enciclopédia de Filosofia de Stanford, as palavras de Aristóteles contra o dialeteísmo são surpreendentemente fracas.

Passamos agora a argumentos contra o dialeteísmo. A única defesa sustentada da Lei de Não Contradição na história da filosofia é, como mencionado, o dado por Aristóteles no Capítulo 4 da Metafísica, Γ. Dada a influência que este capítulo teve, os argumentos são surpreendentemente pobres. O principal argumento de Aristóteles, que ocupa a primeira metade do capítulo, está emaranhado e contorcido. Não está claro o que é, e muito menos, como isso funciona. Sobre o melhor que se pode dizer é que depende de princípios substanciais e discutíveis da metafísica aristotélica e, em qualquer caso, como argumento persuasivo, levanta a questão. Os seis ou sete argumentos que Aristóteles desdobra na segunda metade do capítulo são variados, rápidos e pouco melhores. Muitos também parecem implorar a pergunta. Pior ainda: muitos deles simplesmente confundem dialetismo e trivialismo. (Para uma análise dos argumentos de Aristóteles, veja Priest, 1998b.)[1]



Há uma área na lógica chamada paraconsistência, que é uma lógica anticlássica que viola alguns princípios como o princípio de explosão. Ela demonstra que a lógica clássica é insuficiente se tratando da realidade como um todo, e que algumas leis dela só devem valer para argumentação, sendo extremamente falhas em certos casos, como o já citado paradoxo do mentiroso. O próprio sistema binário da metafísica aristotélica já possuia limitações linguísticas.

A lógica paraconsistente foi fundada recentemente, e um de seus fundadores é Newton da Costa, um logicista brasileiro. Podemos notar a violação dos princípios da lógica clássica na física quântica, que parece não seguir as mesmas regras da nossa realidade, onde uma entidade pode se comportar simultaneamente como onda e partícula[6], ou o gato experimental hipotético de Erwin Schrödinger pode estar simultaneamente vivo e morto[7], e só se torna de fato morto ou vivo quando é observado (devo destacar que não é literalmente um gato, o experimento hipotético de Schrödinger é uma demonstração de como a interpretação de Copenhague da mecânica quântica é estranha na nossa perspectiva macrocósmica). A paraconsistência também encontra-se na computação e inteligência artificial.[8]

Conceitos em uso

Ao longo da postagem, usei de alguns conceitos que você pode não fazer a mínima ideia do que se tratam. Seria bom pesquisar sobre, caso não os conheça. Irei adicionar links mais tarde, caso se interesse.

  • Lógica modal: Mundos possíveis
    • Contingência, necessidade e impossibilidade
  • Contradições
    • Dialeteísmo
    • Lógica paraconsistente
  • Escolástica
    • Tomismo
  • Leis do pensamento

Referências

  1. 1,0 1,1 1,2 PRIEST, Graham & BERTO, Francesco. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Dialetheism. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/dialetheism/.
  2. AQUINO, Tomás. Summa Theologiæ I, Q. XI, Art. 3. Disponível em: https://sumateologica.files.wordpress.com/2017/04/suma-teolc3b3gica.pdf. Tradução clássica de Alexandre Correia.
  3. 3,0 3,1 3,2 AQUINO, Tomás. Summa Theologiæ I, Q. XXV, Art. 3. Disponível em: https://sumateologica.files.wordpress.com/2017/04/suma-teolc3b3gica.pdf. Tradução clássica de Alexandre Correia.
  4. HAWKING, Stephen & MLODINOW, Leonard. The Grand Design. September 7, 2010.
  5. DOWDEN, Bradley. Internet Encyclopedia of Philosophy (IEP), A Peer-Reviewed Academic Resource. Liar paradox. California State University, Sacramento. Disponível em: http://www.iep.utm.edu/par-liar/
  6. BERTLMANN, Reinhold. Universität Wien. Wave-particle duality. Disponível em: http://homepage.univie.ac.at/reinhold.bertlmann/pdfs/T2_Skript_Ch_1corr.pdf
  7. GRIBBIN, John (2011). In Search of Schrodinger's Cat: Quantum Physics And Reality. Random House Publishing Group. p. 234.
  8. DA COSTA, Newton & ABE, Jair. SciELO. Paraconsistência em informática e inteligência artificial. Estud. av. vol.14 no.39 São Paulo Maio/Agosto. 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142000000200012

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